8 de janeiro de 2007

sonhei...

"Sonhei que acabara por me tornar o homem que há tantos anos quero ser. Precisamente no meio desta vida a que chamam “sonho”, na floresta dos prédios da idade coberta de lama, algures entre as ruas sombrias e os rostos ainda mais sombrios, enquanto que dormia esgotado pelo infortúnio, encontrei-te. Compreendia que podias amar-me, ainda que eu não conseguisse tornar-me outro; compreendia também que devia aceitar-me tal como era, com a resignação que experimento quando vejo o meu próprio bilhete de identidade; compreendia como era estúpido esforçar-me tanto por me tornar um outro: num sonho, ou então numa história. À medida que avançávamos, as ruas escuras e os prédios horríveis que se aproximavam de nós com um ar ameaçador afastavam-se para nos deixarem passar, quanto mais andávamos, mais os passeios e as lojas voltavam a fazer sentido. Há quantos anos descobrimos, tu e eu, pela primeira vez esse jogo mágico que tantas vezes encontramos na vida?"
Orham Pamuk Os jardins da memória p. 360
Sinto que muitos dos meus encontros, desencontros, conquistas e ambições terão de ficar para as próximas vidas. Esta está cheia de compromissos de adulto e de trânsito.

1 comentário:

Alien David Sousa disse...

"aceitar-me tal como era, com a resignação que experimento quando vejo o meu próprio bilhete de identidade; compreendia como era estúpido esforçar-me tanto por me tornar um outro"

A dada altura todos passamos por esta fase. Foi por isto que selecionei esta passagem dos Jardins da memória.

Apesar do trânsito, deixa-me que te diga: até ao fim da tua vida, ainda vais ter muitos encontros e desencontros.
Mas isto sou só eu!
Saudações alienígenas