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21 de maio de 2007

E o meme vai para...

Castro de Avelãs

Está na hora da passagem de testemunho. Para novos memes sobre o tema "Paraíso natural" passo a palavra escrita a:

Daniel http://alwaysonroad.blogspot.com/
Nélio: http://und3rblog.blogspot.com/

9 de maio de 2007

Recebi um Meme!

A minha compatriota Porca da Vila passou-me o testemunho.
De acordo com a versão inglesa da Wikipedia, um meme (termo utilizado por Dawkins: 1976)é:

any cultural entity (such as a song, an idea or a religion) that an observer might consider a replicator. He hypothesised that people could view many cultural entities as replicators, generally replicating through exposure to humans, who have evolved as efficient (though not perfect) copiers of information and behaviour. Memes do not always get copied perfectly, and might indeed become refined, combined or otherwise modified with other ideas, resulting in new memes. These memes may themselves prove more (or less) efficient replicators than their predecessors, thus providing a framework for a theory of cultural evolution, analogous to the theory of biological evolution based on genes.
E eis que, do meio dos montes, se pariu mais um "Paraíso Natural"

8 de maio de 2007

Paraíso Natural






Para além das recordações visuais que retenho da Serra da Nogueira, do Montesinho ao fundo, e da “Grande Casa” que é o Marão, não posso deixar de honrar o paraíso natural que é a tradição oral transmontana. Este conto foi-me transmitido oralmente pelo meu avô, “Deus o tenha”. Como é tradição, no Inverno à volta da lareira e no Verão à fresca, numa altura em que não havia net para as massas, telemóveis ou IPod, numa época em que havia urgências 24horas, partos no hospital local e menos incêndios, há precisamente vinte anos.
Cento e um ao dia
Esta estória passa-se no tempo dos almocreves, vendedores de azeite ambulantes que transportavam o precioso líquido em odres carregados por um burro ou cavalo.


Era uma vez um almocreve que andando de aldeia em aldeia teve de passar por um pinhal. Encontrou um camponês que lhe disse:
- Ouça lá, vossemecê não estará interessado em me comprar um cão?
- E para que quero eu o cão?
- Este não é um cão normal. Basta soltá-lo e começar a dizer “cento e um ao dia” “cento e um ao dia” para o cão lhe trazer cento e um coelhos por dia. Vai poder enriquecer facilmente.
O almocreve, porque estava farto de andar a vender azeite, comprou o cão.
Diz-lhe o camponês:
- Só solte o cão quando já não me avistar. Caso contrário, ele vem atrás de mim.
O que o almocreve não sabia era que dentro do saco não estava um cão, mas uma raposa. Quando já não avistava o camponês decidiu soltar o cão. Mal abriu o saco, a raposa fugiu. Começa, então, o almocreve:
“Cento e um ao dia”; “cento e um ao dia”
Aproxima-se de um cemitério onde estavam a enterrar pessoas que tinham morrido devido a uma epidemia. Ao ouvir esta lengalenga, os familiares pensaram que o almocreve desejava que morressem “cento e um ao dia”. Decidiram dar-lhe uma tareia e ordenaram-lhe que dessa hora em diante dissesse:
“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
O Almocreve continuou, então, até à entrada da povoação, dizendo:
“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”

Estávamos na época da matança do porco. Dois compadres tentavam matar dois porcos, mas não conseguiam, porque os animais andavam sempre a cair do banco.
Passa o almocreve pela rua a chamar:
-“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
Os dois compadres ao ouvirem isto vão-se ao almocreve para o zurrar. Dizem-lhe:
- A partir d’agora vais dizer: “ coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Ia o almocreve pela aldeia:
- “ Coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Estava um homem detrás de uma meroça a fazer as suas necessidades quando ouviu:
- “ Coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Pensou que estava a gozar com ele. Levantou-se e esmurrou-o. Disse-lhe:
- Agora vais dizer: “Pitas o rapem e recos o fossem”
- “Pitas o rapem e recos o fossem”; “Pitas o rapem e recos o fossem”
Estava uma família a semear o cereal quando ouviu: “Pitas o rapem e recos o fossem”. Juntaram-se e deram-lhe uma sova. Em vez de “Pitas o rapem e recos o fossem” teria de dizer: “ Que saia todo”; “ Que saia todo”.
O almocreve continuou a sua caminhada, já todo esmuchilado, dizendo: “Que saia todo”.
Passou à frente dum quinteiro, onde deitavam o azeite num odre. Como estava furado, o azeite vertia. Estavam nesta aflição quando ouviram: “ Que saia todo”; “ Que saia todo”.
Largaram o azeite e a vasilha. Deram-lhe uma trepa e avisaram-no:
-“Que não saia nenhum”; “Que não saia nenhum”!
Lá ia o desgraçado do almocreve dizendo “Que não saia nenhum” quando passou por dois padres montados em dois cavalos atolados na lama. Ao ouvirem “Que não saia nenhum” pensaram que um homem lhes estava a rogar uma praga. Um lá conseguiu sair da lama, saltou do cavalo e bateu-lhe. Disse-lhe:
- A partir de hoje apregoarás “Assim como saiu um que saia o outro”
O almocreve foi-se arrastando, dizendo “assim como saiu um que saia o outro”.
Calhou de se cruzar numa ponte com um cego de um olho. Este, ao ouvir “assim como saiu um que saia o outro”, julgou que estava a gozar com a sua pouca sorte e tentou-lhe bater. Como estavam numa ponte, acabaram por cair os dois ao rio.
Ainda hoje lá vão...
Desafio qualquer pessoa a vir a Trás-os-Montes para sentir o peso transcendente do verdadeiro paraíso. Quem não sente a magia milenar destas pedras ou tem um problema emotivo ou nunca beijou à luz do luar no meio do nada.
Obrigada Porca da Vila