Paraíso Natural


Para além das recordações visuais que retenho da Serra da Nogueira, do Montesinho ao fundo, e da “Grande Casa” que é o Marão, não posso deixar de honrar o paraíso natural que é a tradição oral transmontana. Este conto foi-me transmitido oralmente pelo meu avô, “Deus o tenha”. Como é tradição, no Inverno à volta da lareira e no Verão à fresca, numa altura em que não havia net para as massas, telemóveis ou IPod, numa época em que havia urgências 24horas, partos no hospital local e menos incêndios, há precisamente vinte anos.
Cento e um ao dia
Esta estória passa-se no tempo dos almocreves, vendedores de azeite ambulantes que transportavam o precioso líquido em odres carregados por um burro ou cavalo.
Era uma vez um almocreve que andando de aldeia em aldeia teve de passar por um pinhal. Encontrou um camponês que lhe disse:
- Ouça lá, vossemecê não estará interessado em me comprar um cão?
- E para que quero eu o cão?
- Este não é um cão normal. Basta soltá-lo e começar a dizer “cento e um ao dia” “cento e um ao dia” para o cão lhe trazer cento e um coelhos por dia. Vai poder enriquecer facilmente.
O almocreve, porque estava farto de andar a vender azeite, comprou o cão.
Diz-lhe o camponês:
- Só solte o cão quando já não me avistar. Caso contrário, ele vem atrás de mim.
O que o almocreve não sabia era que dentro do saco não estava um cão, mas uma raposa. Quando já não avistava o camponês decidiu soltar o cão. Mal abriu o saco, a raposa fugiu. Começa, então, o almocreve:
“Cento e um ao dia”; “cento e um ao dia”
Aproxima-se de um cemitério onde estavam a enterrar pessoas que tinham morrido devido a uma epidemia. Ao ouvir esta lengalenga, os familiares pensaram que o almocreve desejava que morressem “cento e um ao dia”. Decidiram dar-lhe uma tareia e ordenaram-lhe que dessa hora em diante dissesse:
“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
O Almocreve continuou, então, até à entrada da povoação, dizendo:
“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
Estávamos na época da matança do porco. Dois compadres tentavam matar dois porcos, mas não conseguiam, porque os animais andavam sempre a cair do banco.
Passa o almocreve pela rua a chamar:
-“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
Os dois compadres ao ouvirem isto vão-se ao almocreve para o zurrar. Dizem-lhe:
- A partir d’agora vais dizer: “ coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Ia o almocreve pela aldeia:
- “ Coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Estava um homem detrás de uma meroça a fazer as suas necessidades quando ouviu:
- “ Coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Pensou que estava a gozar com ele. Levantou-se e esmurrou-o. Disse-lhe:
- Agora vais dizer: “Pitas o rapem e recos o fossem”
- “Pitas o rapem e recos o fossem”; “Pitas o rapem e recos o fossem”
Estava uma família a semear o cereal quando ouviu: “Pitas o rapem e recos o fossem”. Juntaram-se e deram-lhe uma sova. Em vez de “Pitas o rapem e recos o fossem” teria de dizer: “ Que saia todo”; “ Que saia todo”.
O almocreve continuou a sua caminhada, já todo esmuchilado, dizendo: “Que saia todo”.
Passou à frente dum quinteiro, onde deitavam o azeite num odre. Como estava furado, o azeite vertia. Estavam nesta aflição quando ouviram: “ Que saia todo”; “ Que saia todo”.
Largaram o azeite e a vasilha. Deram-lhe uma trepa e avisaram-no:
-“Que não saia nenhum”; “Que não saia nenhum”!
Lá ia o desgraçado do almocreve dizendo “Que não saia nenhum” quando passou por dois padres montados em dois cavalos atolados na lama. Ao ouvirem “Que não saia nenhum” pensaram que um homem lhes estava a rogar uma praga. Um lá conseguiu sair da lama, saltou do cavalo e bateu-lhe. Disse-lhe:
- A partir de hoje apregoarás “Assim como saiu um que saia o outro”
O almocreve foi-se arrastando, dizendo “assim como saiu um que saia o outro”.
Calhou de se cruzar numa ponte com um cego de um olho. Este, ao ouvir “assim como saiu um que saia o outro”, julgou que estava a gozar com a sua pouca sorte e tentou-lhe bater. Como estavam numa ponte, acabaram por cair os dois ao rio.
Esta estória passa-se no tempo dos almocreves, vendedores de azeite ambulantes que transportavam o precioso líquido em odres carregados por um burro ou cavalo.
Era uma vez um almocreve que andando de aldeia em aldeia teve de passar por um pinhal. Encontrou um camponês que lhe disse:
- Ouça lá, vossemecê não estará interessado em me comprar um cão?
- E para que quero eu o cão?
- Este não é um cão normal. Basta soltá-lo e começar a dizer “cento e um ao dia” “cento e um ao dia” para o cão lhe trazer cento e um coelhos por dia. Vai poder enriquecer facilmente.
O almocreve, porque estava farto de andar a vender azeite, comprou o cão.
Diz-lhe o camponês:
- Só solte o cão quando já não me avistar. Caso contrário, ele vem atrás de mim.
O que o almocreve não sabia era que dentro do saco não estava um cão, mas uma raposa. Quando já não avistava o camponês decidiu soltar o cão. Mal abriu o saco, a raposa fugiu. Começa, então, o almocreve:
“Cento e um ao dia”; “cento e um ao dia”
Aproxima-se de um cemitério onde estavam a enterrar pessoas que tinham morrido devido a uma epidemia. Ao ouvir esta lengalenga, os familiares pensaram que o almocreve desejava que morressem “cento e um ao dia”. Decidiram dar-lhe uma tareia e ordenaram-lhe que dessa hora em diante dissesse:
“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
O Almocreve continuou, então, até à entrada da povoação, dizendo:
“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
Estávamos na época da matança do porco. Dois compadres tentavam matar dois porcos, mas não conseguiam, porque os animais andavam sempre a cair do banco.
Passa o almocreve pela rua a chamar:
-“ Que não morra nenhum”; “ Que não morra nenhum”
Os dois compadres ao ouvirem isto vão-se ao almocreve para o zurrar. Dizem-lhe:
- A partir d’agora vais dizer: “ coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Ia o almocreve pela aldeia:
- “ Coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Estava um homem detrás de uma meroça a fazer as suas necessidades quando ouviu:
- “ Coma-o com paz e saúde você e a sua mulher”
Pensou que estava a gozar com ele. Levantou-se e esmurrou-o. Disse-lhe:
- Agora vais dizer: “Pitas o rapem e recos o fossem”
- “Pitas o rapem e recos o fossem”; “Pitas o rapem e recos o fossem”
Estava uma família a semear o cereal quando ouviu: “Pitas o rapem e recos o fossem”. Juntaram-se e deram-lhe uma sova. Em vez de “Pitas o rapem e recos o fossem” teria de dizer: “ Que saia todo”; “ Que saia todo”.
O almocreve continuou a sua caminhada, já todo esmuchilado, dizendo: “Que saia todo”.
Passou à frente dum quinteiro, onde deitavam o azeite num odre. Como estava furado, o azeite vertia. Estavam nesta aflição quando ouviram: “ Que saia todo”; “ Que saia todo”.
Largaram o azeite e a vasilha. Deram-lhe uma trepa e avisaram-no:
-“Que não saia nenhum”; “Que não saia nenhum”!
Lá ia o desgraçado do almocreve dizendo “Que não saia nenhum” quando passou por dois padres montados em dois cavalos atolados na lama. Ao ouvirem “Que não saia nenhum” pensaram que um homem lhes estava a rogar uma praga. Um lá conseguiu sair da lama, saltou do cavalo e bateu-lhe. Disse-lhe:
- A partir de hoje apregoarás “Assim como saiu um que saia o outro”
O almocreve foi-se arrastando, dizendo “assim como saiu um que saia o outro”.
Calhou de se cruzar numa ponte com um cego de um olho. Este, ao ouvir “assim como saiu um que saia o outro”, julgou que estava a gozar com a sua pouca sorte e tentou-lhe bater. Como estavam numa ponte, acabaram por cair os dois ao rio.
Ainda hoje lá vão...
Desafio qualquer pessoa a vir a Trás-os-Montes para sentir o peso transcendente do verdadeiro paraíso. Quem não sente a magia milenar destas pedras ou tem um problema emotivo ou nunca beijou à luz do luar no meio do nada.
Obrigada Porca da Vila


12 comentários:
gostei da palavra esmochilado, que não conhecia. embora seja algarvio, a minha avó materna era galega e era um verdadeiro cancioneiro de ditados, lenga-lengas, histórias e trava-línguas. aqui pelos algarves também há uma grande tradição de histórias que passam por transmissão oral. é um mundo que se vai perdendo aos poucos, que faz parte do nosso imaginário infantil e que não soubemos transmitir às novas gerações. essa minha avó, que era professora primária, dizia muitas vezes: quando morre um velho é como se ardesse uma biblioteca. obrigado por ma teres feito recordar. finalmente falta a moral da história, que estas histórias serviam sempre para passar uma ideia-base. neste caso penso que seria qualquer coisa do género: quem diz aquilo que lhe dizem para dizer, trama-se...
É verdade Nélio! Boa observação.
A verdade é que o nosso paraíso é, muitas vezes, a imagem idílica da infância. Boas memórias!
Coitado do Almocreve! Não acertava uma!
Também eu me recordo, quando ia passar uns dias à aldeia dos meus avós, de se contarem histórias à lareira depois da ceia.
[Naquele tempo era uso cear, para além do almoço e do jantar, por volta das nove da noite]
Obrigada por ter aceite o desafio.
Um Xi da Porca
A transmissão oral é um verdadeiro tesouro que a gente transmontana deveria presar mais.
Different o teu meme esta espetacular... também eu tenho saudades de ouvir esses contos...
Caro Nelio, para enrequecimento deixo aki mais alugumas palavras tipicamente transmontanas:
Alacraio – escorpião
Cachola – cabeça
Chanato – sapato velho
Gomitar – vomitar
Marra – bloco de pedra
Nacho – nariz acachapado
Naco – pedaço
Parreco – pato
Pita –galinha
Rebaldaria – confusão
Torgueiro – grosseiro de modos
Equal:
a definição de torgueiro está suberba! "grosseiro de modos", ao qual se podia acrescentar "foleiro", "exibicionista", "paspalho". Esta palavra tem, de facto, muitos significados e pode ser usada com amigos, inimigos e desconhecidos.
gostei do torgueiro, sinónimo de burgesso...
ora aí está um termo que desconhecia: burguesso!
burgesso e não burguesso :)
Tanto faz... burgesso também não conhecia:)
Muito bom o "meme"!
Curti a tua adaptação, e por acaso conhecia a história, também tive a sorte de ter avós a contarem histórias ao borralho, se bem que mais para os lados de outras boas terras Transmontanas.
As palavras transmontanas também estão aqui muito bem colocadas :)
Vou ver se me lembro de mais algumas.
Bjinho
Olá Daniel!
Fico à espera de mais termos :)
Pois bem, voltei para deixar aqui mais algumas palavras bem curiosas e tipicas do paraiso que é tras-os-montes:
cheldrão - rapaz foleiro
chiasco - tempo frio
briol - tempo frio
grizo - tempo frio
:)
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